segunda-feira, 5 de outubro de 2009
ensaio a respeito da loucura do medo.
"...abro os olhos e eu estou lá. A menos de dez centímetros do meu próprio rosto. Sinto o hálito fedorento de nicotina bufando sobre mim. Não sei se sou eu quem respiro ou se sou eu que sinto. Talvez os dois. Poderia dizer que a essa altura do campeonato já não sinto medo, mas meus músculos protestam e se unem com meus ossos que parecem congelar. Meus olhos são pretos. Dois buracos. Dois abismos direto pro inferno! E a Casa do Senhor pede um Aleluia! Sinto uma gota de saliva minha pingar sobre meu rosto. Quente, ácida, quase coroe as maças completamente sem cor da minha expressão de horror. Desisto de gritar. Sei que não vou conseguir. Lá na cozinha, alguém prepara o café. Sinto o cheio de ovos às três da manhã. Deve ser mamãe. Papai. O Maluco. Ou o próprio demônio! Eu continuo me encarando, distante, morto. A espera de alguma coisa que, por Deus, eu deveria saber o que é. Mas a única coisa que eu, efetivamente, sei é que Mamãe gritou no telefone. Papai, alguma coisa com papai. Nunca mais ví papai, depois daquela noite. E mamãe... me trás o café todo dia. Sempre com aquele seu vestido azul e o buraco vermelho-sangue-vivo no meio da testa, pingando uma mistura de sangue e miolos bem em cima dos ovos mexidos que eu tanto gosto. Mamãe sim. Mamãe eu vejo todo o dia..."
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