segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O que sobra para quem é incapaz de sentir saudades? [I]

I - Ed, o mendigo

Me fiz essa pergunta assim que conheci Ed. Antes, é claro, devo contar um pouco sobre ele. Ed é uma figura completamente sem sentido ou propósito, totalmente desconexa da sociedade e alheia ao “mundo errado” – em suas próprias palavras – que, em algum ponto do caminho, desistiu de uma vida e embarcou em uma viagem sem volta para o desconhecido.
Conheci o indivíduo quando caminhava, bêbado, pelas ruas do centro em uma noite quente e confusa de um verão qualquer desperdiçado com drogas e amores já perdidos no tempo. Eu cambaleava pela calçada com um maço de cigarros pela metade, a única riqueza em meus bolsos, tentando bolar um plano mirabolante para voltar para casa. Então Ed apareceu, surgindo de algum canto, e se pôs a caminhar ao meu lado. Mal humorado e puto com a vida, me apressei em dizer que não tinha um centavo nas calças e que me deixasse em paz. Ed riu e continuou acompanhando minhas passadas tortas e largas. Parei e encarei o homem. E é nesse ponto da história que eu percebi que Ed era especial.
Ele é um homem negro de, aproximadamente, 1,85m de altura. Apesar da aparência lastimável, não parecia chegar aos quarenta anos. Neste primeiro encontro, Ed estava magro e faminto, tinha a barba e o os cabelos imensos e imundos, vestia uma calça que há muito já estava destruída e exibia o peito nu. Mesmo na escuridão eu pude ver e contar claramente as costelas do homem. Porém, meu caro, ele sorria. Seus olhos brilhavam em um misto de alegria e excitação, como os de uma criança abrindo seus presentes de aniversário. O sorriso era calmo e reconfortante. E, nessa hora, eu não tive medo de Ed.
Ofereci um cigarro. Ele respondeu que cuidava muito bem de sua saúde bucal, o que apesar de louco, parecia ser verdade. Para um mendigo seus dentes eram absurdamente brancos. Me servi de um e perguntei por que ele estava me seguindo. Ele disse que não estava seguindo, apenas acompanhando. Perguntei se ele iria tentar me sacanear. Ele disse que não e eu acreditei. Então, eu e Ed, caminhamos e conversamos. Enquanto eu tinha devaneios filosóficos devido à bebedeira, ele acompanhava cada raciocínio, sempre respondendo de uma maneira absurdamente sagaz. Falamos da beleza e do horror que é estar vivo, das preocupações e dificuldades que a cidade traz, de quem somos e pra onde vamos e de muitas outras coisas que uma mente alcoolizada nunca poderá se lembrar.
Ed sempre tinha o que dizer, não importava o assunto. Explicava e discursava como um velho professor, sempre exemplificando suas opiniões com um fato da época em que ainda tinha uma “vida errada” no “mundo errado” e sempre parava para certificar que eu estava acompanhando e entendendo. Falava arrastado, com um sotaque típico carioca em uma voz rouca e jovial. Algumas vezes gargalhava alto, rindo de suas próprias histórias ou de minha bêbada estupidez. Eu sentia sinceridade naquelas risadas como quase nunca havia sentido. Então eu também ria.
Bem, a essa altura do campeonato, já estávamos na Central e ele disse que tinha assuntos para resolver por ali. Eu contei que não tinha como voltar para casa e ele tirou uma nota de cinco reais do bolso traseiro do trapo que ele insistia em chamar de calça. Fiquei ainda mais maravilhado com aquele homem imundo e raquítico e perguntei quem, afinal, era ele. Ed respondeu algo parecido com “a vida é estar vivo” ou “viver é a vida” ou “viver é estar vivo”, infelizmente não me lembro e na hora me pareceu o comentário mais estúpido do mundo. Ele riu e completou dizendo que, se algum dia nos esbarrássemos novamente, ele cobraria seu dinheiro com juros, mas que eu teria que pagar em cerveja.
Peguei o ultimo ônibus para casa e dormi assim que sentei. Fiquei por muito tempo me perguntando se tudo aquilo teria sido real. Só tive a resposta mais de um ano depois, quando Ed não era mais um mendigo e cobrou minha dívida.

Um comentário:

Anônimo disse...

Contos ou roteiro?