O rapaz era um jovem astronauta. Ficou tanto tempo no céu,
admirando planetas e conversando com estrelas, que quase esqueceu de como era
sua terra. Se acostumou a olhar o mundo de cima, feliz e despreocupado. Vez ou
outra esbarrava com algum outro astronauta e, com muita alegria, eles se
embebedavam, riam e ansiavam por suas casas. Mas a nostalgia só durava o efeito
do álcool. Depois cada um seguia seu caminho espaço adentro, remoendo com um
certo terror as idéias de abandonar as estrelas. “Era uma boa vida”, ele diria
mais tarde. E a tristeza em seus olhos seria confirmação suficiente.
Em uma noite – afinal, no espaço
é sempre noite – ele é mandado de volta para sua terra. Enquanto caía, evitava
lamentar por isso. Repetia para si mesmo: “Foram bons tempos! Nada dura para
sempre! Algum dia eu voltarei! Sinto saudades da minha terra!”. Pobre tolo.
Tais mentiras até conseguiram deixa-lo ansioso pelo retorno. Sem muitas
delongas, ele chegou, afinal a viagem de ida é muito mais demorada e complicada
que a volta. Não houve festa. Nem uma recepção sequer. Nenhum “bom te ver!” ou
“seja bem vindo!”. Nada. Ele apenas caiu, sozinho, de volta para o mundo. Logo
uma sensação de estranheza dominou sua alma.
Correu em busca dos pequenos
prazeres. Dormiu em sua cama, fez a melhor refeição de todos os tempos, sentiu
a brisa quente no rosto e mergulhou no mar. Ah, os pequenos prazeres! Não
importa por quanto tempo os abandone, eles sempre farão falta. Mas tudo
continuava muito estranho. As pessoas haviam mudado, apesar de parecerem
exatamente iguais ao que ele lembrava. As ruas haviam mudado, apesar de
parecerem exatamente iguais ao que ele lembrava. Todo o mundo havia mudado,
apesar de parecer exatamente igual ao que ele lembrava. Foi quando o jovem
astronauta entendeu que, de fato, tudo continuava igual, menos ele. Seus amigos
não queriam conversar sobre as estrelas. Sua família não queria saber do
universo. Em pouco tempo ele se lembrou do motivo de ter virado um astronauta,
de sua imensa paixão pelo espaço e, toda aquela estranheza, se transformou em
desespero.
A solução que ele encontrou foi
simples. Cavou um buraco imenso em algum lugar e ali ficou. Deixou o
arrependimento, a saudade e a melancolia passearem livremente em seu coração.
Não queria reprimir esses sentimentos. Encarava como uma punição e,
constantemente, se perguntava: “por que?!”. Mas a escuridão de seu buraco não
parecia interessada em responder. Ali ficou por dias, meses ou, talvez, anos.
Não olhou para o céu nem uma única vez. Até o dia que julgou estar pronto para
sair.
De volta à superfície, tentou fazer amigos, conhecer mulheres, arrumar empregos, mas
frequentemente estragava tudo. Desperdiçou grandes oportunidades por causa de
sua falta de costume. Não sabia falar, sentir ou ser como as outras pessoas.
Ainda demoraria para se adaptar. Às chances jogadas fora, ele diria: “desculpe
esse meu jeito louco de ser, é porque eu vim do espaço.”, e rezaria para que
elas entendessem.
Hoje, o astronauta já não é mais tão jovem assim. A
vida na terra é dura e rugas se espalham pelo seu rosto. Ainda não é
normal. Nunca mais será normal. Mas esta conseguindo passar despercebido
pela maioria. As vezes esbarra com algum ex-astronauta, como ele. Mas então, não
há bebida ou risada, apenas olhares complacentes. E toda noite, ele ainda admira o céu. Não existe mágoa ou tristeza, apenas um pequeno aperto no peito que levará
consigo para o resto da vida.
Um comentário:
Também sinto o mesmo aperto no peito, eterno estranho. Torço de todo coração que um dia haja tempo e vontade suficiente para a volta do astronauta ao espaço. Belo texto.
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