terça-feira, 20 de março de 2012

Sortuda

Naquele dia, o céu estava negro e vazio. A lua se erguia tímida e distante, uma foice desbotada pendurada na escuridão. Sua única companheira na imensidão era uma pequena estrela que emanava um brilho pulsante, majestoso, irradiando felicidade por sua solidão. Todos os olhos deveriam ser para ela naquela noite. Eu caminhava pela rua, perdido em um formigueiro de gente apressada, correndo desesperadas, ansiando pelo conforto de suas casas. “Ela nunca iria reparar em mim no meio de tanta gente”, pensei com um sorriso idiota brotando no rosto, enquanto olhava para a estrela. Lá de baixo, batizei-a de “Sortuda”, uma atitude bastante prepotente, diga-se. Que direito eu tinha de dar um nome à uma maravilha como aquela? O mais certo seria ela me nomear, acredito. “Apaixonado” cairia bem naquela noite. Continuei minhas passadas desajeitadas, alternando minha atenção entre a rua e a Sortuda. “Ninguém mais olha pro céu”, pensei. Talvez não fosse verdade. Uma lua cheia ou um céu salpicado com trilhões de estrelas chamaria a atenção de uma ou duas pessoas. Quem iria se interessar por uma estrela tão comum e solitária, perdida em uma infinidade negra? Pobre Sortuda. Seu dia de glória estava fadado a passar despercebido. Naquela noite, fiz companhia a ela madrugada adentro. Depois disso, nunca mais a encontrei. Agora ela está perdida na confusão do espaço, rodeada de irmãs gêmeas por todo o lado, tornando inútil minha procura. Perde-la não me entristeceu, porém algumas vezes, quando estou rodeado pela escuridão esperando o sono chegar, sinto saudades da minha Sortuda.

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